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Férias... finalmente!
Cidade maravilhosa aqui vou eu...
Volto em breve!
Beijos e abraços a todos!
Série: “os Homens”
Final

Seja querendo o belo, seja almejando o eterno... Homens, seres racionais... Já disse Aristóteles que nada caracteriza melhor o homem do que o fato de pensar. O homem vibra, tinge o presente, recorta o passado, conspira o futuro. O homem é sede, suor, saliva, grito. Tarefa árdua tentar entender... O homem não se compreende... Pai, amigo, irmão, filho... Tantos homens e apenas um sentimento. Disseram-me um dia que o maior presente ao homem seria a imortalidade, mas com certeza, o homem buscaria mais. O impossível, o abrigo, o longínquo, o homem brinca com os dedos de Deus, faz marionete no teatro da vida, manipula o tempo... E há tantos homens dentro de mim... Sou formado de personas masculinas, influências externas que me extasiam... Sou José, Pedro, João, Antônio, Richard, Alex, Ney, Jairo, Darlan, Alexandre, Wellington, Ivan, Fabrício, Beto, Che, Oscar, Sören, Augusto, Renato e tantos outros... Sou anjo, homens são anjos. Sou capeta, homens também são capetas. Sou homem... Sou fração, sou pouco e muito, sou um punhado de cada homem que atravessa meu caminho.
Série: “Os Homens”
corrente...
Ao Well Pires, orfeu
De repente, como num relance do silêncio, me bateu uma saudade daquele peste preta que está do outro lado do país... Saudade da nossa idolatria de irmão, a gente briga, se mata, mas estamos sempre um do lado do outro, nem que seja em pensamento, como agora. Há uma interligação que ultrapassa o quesito amigo e se torna mais fraternal, há um elo “biondiano” que nos fortalece, há o certo, o novo, o errado... O relicário, os livros, as músicas, há pedaços... Há fragmentos... Menino do pastoreio com sagacidade de saci-pererê, ainda que haja quilômetros nos separando a corrente não se quebra assim como o corpo é pão e o sangue é vinho no altar.

Menino deus
(Caetano Veloso)
Menino Deus, um corpo azul-dourado
Um porto alegre é bem mais que um seguro
Na rota das nossas viagens no escuro
Menino Deus, quando tua luz se acenda
A minha voz comporá tua lenda
E por um momento haverá mais futuro do que jamais houve
Mas ouve a nossa harmonia
A eletricidade ligada no dia
Em que brilharias por sobre a cidade
Menino Deus, quando a flor do teu sexo
Abrir as pétalas para o universo
E então, por um lapso, se encontrar no anexo
Ligando os breus, dando sentido aos mundos
E aos corações sentimentos profundos
de terna alegria no dia do menino Deus
Série: “Os Homens”

A CARICATURA
Para espanto geral, o disparate subiu ao palco.
Desnudou-se do estigma e mostrou toda angústia
Zombou dos olhares pateticamente oblíquos
Zombou, simples, dos olhares enfermos
brotando como único e longe dos covardes
sem pinturas abstratas ou virtudes emprestadas.
Ergueu o mastro ereto num gesto obsceno
e riu da platéia em tom maior, arrogante como um bêbado
mudando nos homens a vã filosofia da exatidão.
Eles nada entendiam de antropologia.
(Bony Fajardo)
Série: “Os Homens”

Aprendizado
Ao Ney Alexandre
Está tocando de fundo aquela canção do Djavan... Da leveza da cortina de cor gelo até o raio de sol que adentra suavemente o quarto, há um pedaço de sensibilidade linear que se altera na discrepância dos segundos. É quase o amanhecer da alma, perene é o seu estado... Eu não sei se me perco no jogo de luzes e cores que me permito assistir, sedento por um desfecho ou se me perco envolto com a caneta e a sua carta na mão e a música nos ouvidos. São todos os sentidos vibrando de forma enlouquecedora... E o gosto de saudade que não vem da boca, mas do coração. Há pequenos atos que se transformam em grandes acontecimentos, e estes ficam ali guardados para sempre. Ando sorrindo para o nada, vez ou outra, amigo... Renascendo a cada milagre, aprendendo contigo que felicidade vai e vem e que, às vezes, tudo está quase terminado. Acordo para a vida, entorpecido... A realidade é uma quimera, quem sabe.
“...E tudo nascerá mais belo
O verde faz do azul com o amarelo
O elo com todas as cores
Pra enfeitar amores gris...”
( Djavan )
Série: “Os Homens”

Sonho audaz
Ao Fabrício, Ícaro sonhador
Pousando no sonho que ousa sonhar, eis que encontro invólucro em quimeras perdidas da necessidade de voar, apenas... E quer o vôo mais perfeito, pois já que o sonho dura apenas horas de uma noite de sono, o espaço entre o desejado e o conquistado permite segregar na mão, escoando como um punhado de areia apanhado... Há dias guardado, meu bem precioso, a ti revelado, sua amizade, o bem mais valioso para mim. Ainda há na lembrança daqueles dias intercalados entre a euforia e o desespero. E eu sentia suas asas do meu lado. Ainda perto sinto o fato de querer viver e de me fazer reviver... Ah, personificador do sonho de Ícaro, traz consigo a alma de menino estigmatizada em seu semblante, se há limites para realizar seus desvarios, não passa na sua visão, pois o esforço para lutar arrebata sua vontade e o sol se recusa a derreter suas asas.
Série: “Os Homens”

Poema
Eu hoje tive um pesadelo
E levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo
E procurei no escuro
Alguém com o seu carinho
E lembrei de um tempo
Porque o passado me traz uma lembrança
De um tempo que eu era ainda criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço, um consolo
Hoje eu acordei com medo
Mas não chorei nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via o infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou
E
De repente, a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu há minutos ou anos atrás
Cazuza
Série: “Os homens”

Ao Mateus, homem demasiado humano
Eu pairo na imensidão desse vazio e me pego admirando diversos vestígios de influências que me interrogam, discretamente. Se a vida da gente é algo que está além de vislumbrar do sétimo andar de nossa consciência um horizonte distante, o cara estranho aventura-se contra o vento, em dois barcos, já que fez-se mar nessa imensidão e o pouco que sobrou da última conversa de botas batidas está do lado de dentro ainda, preso em lágrimas sofridas. Tenha dó! Não percebe que todo carnaval tem seu fim? Que uma hora ou outra perdemos o azedume do Pierrot, duelamos o velho e o moço e não sabemos de onde vem a calma? E eu sei que há um par de coisas em sua mente... Pois é, mas um dia a primavera vai embora e deixa o verão de presente para a gente. Veja bem meu bem, a flor, que há onze dias perdura nos braços de outro alguém, vai embora, é de lágrima que se vai despetalar, e o pouco que sobrou do resquício do carinho está além do que se vê... Tão sozinho, dança um samba a dois, relembrando o último romance... Condicional é a alma de quem só existe, não vive mais... Não é o seu caso e eu te admiro por isso. Quem sabe o vento traga um outro alguém, você me diz. Alguém que pinte comigo um retrato pra Iaiá no primeiro andar de uma casa pré-fabricada, que seja sentimental, numa noite de cor morena e cantemos mais uma canção? Ele me sorri entusiasmado, coloca seu sapato novo e me pergunta com seu bom humor habitual: Cher Antoine, cadê teu suin? E eu não tenho dúvidas que, na vida, ele é o vencedor.
*As partes destacadas são títulos de canções da banda Los Hermanos.
Série: “Os Homens”

Na penumbra...
Ao deus de sorriso perfeitamente imperfeito
Eu espero a hora passar como quem espera a última gota de esperança cair... Passam-se o tempo, mudam-se as estações, recomeça o devir terrestre, nutrem-se ilusões, divago sobre o nada... Apenas te vejo e isso me basta. Fuço seus arquivos, pareço maníaco, louco, doente, psicopata... Eu me perco nesse labirinto. Faço cópias de suas fotos 3 x 4, guardo-as para mim. Ouço suas músicas favoritas e faço delas trilhas minhas, eu te capto obsessivamente, eu te prendo dentro de mim. Eu te chamo
Série: “os homens”

“...Eu quis o perigo e até sangrei sozinho, entenda
Assim pude trazer você de volta prá mim,
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim
E é só você que tem a cura para o meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi...”
Renato Russo
Série: “os Homens”

Num papel decorado com estrelas...
Ao Richard Mathenhauer
Adianto os passos na estrada e caminho sozinho até ver sua pessoa na beira daquele rio... Meu poeta, amigo, homem, menino, eu sempre erro com as pessoas, mas sabia que estava certo com você. Havia uma coisa de instinto, não só o amor pelas cartas... E hoje rivalizamos nossos gostos comuns com aspectos diferentes da mesma igualdade. Eu gosto de te ouvir contar sobre os seus dias, e desejo que sejam sempre bons... Cobro-me dar-te atenção... Ontem precisei guardar o ritmo na mão, presumindo que a caneta soubesse de meus sonhos particulares e logo depois, num papel decorado com estrelas, as notícias chegassem ainda brilhantes ao seu alcance... E quando a missiva segue seu rumo natural, há um pedaço meu que vai junto. Depois, desesperado, aguardo inquieto a sua volta, crio expectativas, marco tocaias e quando finalmente te recebo, deleito horas extasiado na pressão que sinto subir, mera taquicardia de euforia, como pomada anestésica, aliviando minhas feridas levemente abertas... Guardo cada letra, cada oração, cada sonoridade que ressoa de sua boca balbuciando sob forma de honoráveis letras, os discursos de amizade eterna.
Série : “Os Homens”
Dou uma tragada no último Lucky Strike, degusto um pouco mais da Vodka, apresso os olhos e releio por sucessivas vezes a frase do meu ideal apolíneo-dionisíaco:

“Existe apenas uma forma de grandeza para um homem. Se um homem puder ultrapassar o abismo entre a vida e a morte, quero dizer, se ele conseguir viver depois que morreu, então, talvez, seja um grande homem.”
James Dean
Série: “os Homens”

Submisso
Ao meu que nunca foi meu…
Prazer nefasto
Este de me fazer sofrer
Mas não poderia ser diferente...
Em meu pescoço
Crava-te os dentes
E assiste, feliz,
O meu desespero.
Jorra-se sangue
Passa a mão no meu cabelo
E até mesmo o gosto amargo
Diante do seu cheiro
É o mais puro néctar
No bálsamo do meu desejo.
Série : “os homens”

Ao meu pai
Da sala para o meu quarto há um espaço onde ele gosta de ficar, parece um ritual daqueles sacramentados, cheio de dogmas... Todas as manhãs ele fica lá, sentado, lendo Reader´s digest... E eu aprecio sua fisionomia passiva.
Eu nunca acreditei na idéia de que o pai é o herói do filho, nunca mesmo. Meu pai era distante, frio por vezes, quieto, calado demais... Na única vez que ouvi qualquer esboço de sentimento, ele me olhou e disse que não aprendera a ser carinhoso, mas eu exigia. Talvez faltasse empenho da parte dele. A verdade é que nossa relação nunca foi boa, sempre fui o filho mais questionador e expressivo, me destacava pelo meu jeito insuportavelmente malcriado de ser. Quantas e quantas vezes, eu o ouvi falar mal de meu comportamento, renegando a educação que tivera recebido. Há anos não nos falávamos, sequer morava mais com ele... Eu era o filho que batera de frente, destruindo suas ideologias e instaurando inquéritos sobre suas crenças... Eu fora o filho que pegara os pregos para pregá-lo na cruz. Mas o menino cresceu e começou a cometer os mesmos pecados que o pai e não aceitara que ninguém o condenasse... “Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração...” O tempo passou... Ah, acaso... deitado num leito de hospital, eu o vislumbrei... “Pai, por onde andei?” E aquele mesmo que me ensinara que homem não chorava, derramou lágrimas no travesseiro naquela manhã de outono. Se o bom filho à casa torna, eu não sei... Mas eu voltei.
Série : “Os Homens”

Homem sm. 1. Qualquer indivíduo da espécie animal que apresenta o maior grau de complexidade da escala evolutiva; o ser humano.
Suspenso à voz que lia em braile os sentimentos, ele adentrou a fachada da minha casa, ultrapassando as esquinas do meu coração. Não era cedo, nem tarde... Eu estava perplexo ao sentir no cheiro que afundava em meu nariz o mais magistral aroma da necessidade: Eu colo em seus lábios, ultrapasso as mãos ligeiras, eu mordo, aguço ainda mais o faro e enterro minha língua na sua orelha... Parecemos dois animais agora... E é o que somos. Dois animais, nada mais. Dois homens.
Observação: Durante um certo período, ainda não definido, serão expostos aqui pequenos textos, cartas, contos, crônicas e poesias com o tema “Os homens”, em homenagem ao meu pai, aos meus amigos, aos meus conhecidos, aos meus amores e desamores ou aos homens desconhecidos...
Efeito placebo

“There are twenty years to go
and twenty ways to know
who will wear the hat.
There are twenty years to go,
the best of all I hope.
Enjoy the ride, the medicine show.
And thems the breaks for we designer fakes.
We need to concentrate on more then meets the eye.
Eu, amarrado em minha própria teia de desigualdade, me sinto perdido aos constantes modos de insanidades captados pela minha persona. Como fantasmas a pairar numa realidade de dimensões extremadas, atraco nesse porto, nesse intenso submundo envolto em mim, eis solidão.
“There are twenty years to go,
the faithful and the low.
The best of starts, the broken heart, the stone.
There are twenty years to go,
the punch drunk and the blow.
The worst of starts, the mercy part, the phone.”
Entro em meu quarto e bato a porta, trancando-a com chave, duas voltas, pra garantir. Adentro, amedrontado com o ato que estou prestes a realizar. Abro a gaveta da cômoda, no escuro, vejo o canivete. Coloco um som bem alto, Twenty years do Placebo... o toque da música intercala com as batidas do meu coração, cada vez mais forte, crescendo....
“And thems the breaks for we designer fakes.
We need to concentrate on more then meets the eye.
And thems the breaks for we designer fakes.
But it's you I take 'cause your the truth not I.”
Numa tentativa louca e permissiva de fuga, afugento meus medos num estado de abnegação... a lámina do canivete invade partes do meu corpo, me corto com a certeza de que em breve estarei mais calmo, mais vivo, meus dedos sujos de sangue escorrem névoa de inebriação, ao passo que meu joelho vai sendo alisado friamente pelo canivete. Estou inconsciente....
“There are twenty years to go.
A golden age I know.
But all will pass, will end to fast, you know.
There are twenty years to go,
and many friends I hope.
Though some may hold the rose some hold the hope.”
Para o peso da necessidade de vida que não detenho em mim, conceber, mediante análise dos últimos acontecimentos, a solidão é o maior castigo daqueles que pecam. O fundo do poço é mais escuro que as trevas do inferno, com certeza. Calo-me, anestesio o peso da minha existência com os cortes em meu braço agora... Tento cobrir com a camisa branca que agora está manchada.
“And that's the end and that's the start of it.
That's the whole and that's the part of it.
That's the high and that's the heart of it.
That's the long and that's the short of it.
That's the best and that's the test in it.
That's the doubt, the doubt,
the trust in it.
That's the sight and that's the sound of it.
That's the gift and that's the trick in it”
Enquanto a música fica mais alta, o efeito passa e sinto a dor cortar a minha alma de maneira voraz e devoradora, me arrependo de me cortar... passo álcool nas feridas que fiz em mim mesmo e agora sinto arder no contato do líquido de cheiro forte com os machucados, estou ajoelhado no chão frio, como quem pede perdão pelos atos insólitos de uma mente perturbada. E se eu me corto é pra fugir de mim mesmo, mas o efeito é placebo, como a música que toca para abafar os meus gritos de aflição. Mais um dia de vida e, de novo, com dedos sujos de sangue.
“You're the truth not I.”
Val,
Começo este bilhete te fazendo uma pergunta: “Será que você vai saber o quanto eu penso em você com o meu coração?”, frase retirada de uma música da nossa amada Legião. Quantas coisas em comum, hein? Além da própria banda, Jujubas, James Dean, sonhos e ilusões... Junto com este bilhete vão meus três presentes: Uma poesia boba, infantil, eu não sou poeta ma queria expressar, de forma doce e ingênua, meu carinho. Segue também um texto da amada Clarice Lispector que me lembra a sua imagem toda vez que leio. E o presente principal: meu carinho eterno por você.
Gosto muito de você!
Feliz aniversário!
Voa borboleta mais linda
Acordes de canções profundas
Louvam sua existência
Que emana em sua alma
Uma noite ao luar.
Indo de um lado a outro
Rubros cravos de ouro
Incessantemente brilham
Amparados em seu olhar.

Uma imagem de prazer

Conheço em mim uma imagem muito boa, e cada vez que eu quero eu a tenho, e cada vez que ela vem ela aparece toda. É a visão de uma floresta, e na floresta vejo a clareira verde, meio escura, rodeada de alturas, e no meio desse bom escuro estão muitas borboletas, um leão amarelo sentado, e eu sentada no chão tricotando. As horas passam como muitos anos, e os anos se passam realmente, as borboletas cheias de grandes asas e o leão amarelo com manchas - mas as manchas são apenas para que se veja que ele é amarelo, pelas manchas se vê como ele seria se não fosse amarelo. O bom dessa imagem é a penumbra, que não exige mais do que a capacidade de meus olhos e não ultrapassa minha visão. E ali estou eu, com borboleta, com leão. Minha clareira tem uns minérios, que são as cores. Só existe uma ameaça: é saber com apreensão que fora dali estou perdida, porque nem sequer será floresta (a floresta eu conheço de antemão, por amor), será um campo vazio (e este eu conheço de antemão através do medo) - tão vazio que tanto me fará ir para um lado como para outro, um descampado tão sem tampa e sem cor de chão que nele eu nem sequer encontraria um bicho para mim. Ponho apreensão de lado, suspiro para me refazer e fico toda gostando de minha intimidade com o leão e as borboletas; nenhum de nós pensa, a gente só gosta. Também eu não sou em preto e branco; sem que eu me veja, sei que para eles eu sou colorida, embora sem ultrapassar a capacidade de visão deles (nós não somos inquietantes). Sou com manchas azuis e verdes só para estas mostrarem que não sou azul nem verde - olha só o que eu não sou. A penumbra é de um verde escuro e úmido, eu sei que já disse isso mas repito por gosto de felicidade; quero a mesma coisa de novo e de novo. De modo que, como eu ia sentindo e dizendo, lá estamos. E estamos muito bem. Para falar a verdade, nunca estive tão bem. Por quê? Não quero saber por quê. Cada um de nós está no seu lugar, eu me submeto bem ao meu lugar. Vou até repetir um pouco mais porque está ficando cada vez melhor: o leão amarelo e as borboletas caladas, eu sentada no chão tricotando, e nós assim cheios de gosto pela clareira verde. Nós somos contentes.
(Clarice Lispector)
“De tanto eu te falar, você subverteu o que era um sentimento
e assim fez dele razão
Pra se perder no abismo que é pensar e sentir...”
(Sentimental, Los Hermanos)

Ela havia dito que não guardava rancor dele, embora soubesse que ele nunca fora fiel, até vê-lo aos beijos naquela festa que de tão suja parecia ser feita numa lata de lixo... Mas se contradisse na contradança da vida. Os olhos úmidos da garota denunciaram a mágoa que afligia aquele coração... Ao som de uma música qualquer, ela se abraçou, sentiu uma pontinha de angústia e foi embora. Ela dizia não sentir raiva, mas sua voz já não era a mesma, parecia ficar presa na garganta, atravancada num nó... Eu peguei aquele rosto pra mim e guardei numa caixinha dentro do meu coração, ela escrevia em palavras sem nexo em seu diário particular. Sentiu um arrepio... Ainda com o gosto salgado de lágrima na boca, fechou os olhos após tomar aquelas pílulas milagrosas guardadas a sete chaves num baú empoeirado de sua mãe louca. Acordou dias depois numa cama de hospital. Eu estava desesperada, quis se explicar. Você precisa de tratamento, hospital, manicômio, tem que se restabelecer, disse sua mãe louca.
Depois de dias naquele marasmo, ela agarrou a bonequinha que ganhou de um novo amigo e deu um nome à sua filhinha... Deitada na grama do jardim do hospício, mal imaginou que o maior amor que possuía era o seu amor próprio que foi ingerido com aquelas pílulas de rancor.