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Cartas são eternas...
Poeta amigo, amigo poeta,
Quando a gente fala de amizade, amizade verdadeira, deveríamos falar sob neologismos lânguidos e adocicados... Me reporto a ti como meu amigo eternurado, pois desde sempre, faz-se eterno sendo terno (de ternura) comigo. Ah, poeta de pombal, as águas de março estão fechando o verão... O outono aparece da sacada da janela mais alta e diz que está aqui, mais perto, constante... Mas não é esse o motivo de escrever esta missiva, se bem que não acho que uma carta deva ser escrita por alguma razão. Palavras não se fazem presente, elas são presentes, dados, recebidos... Dentro de um envelope lacrado pode até ir uma alma machucada, manhãs, gosto de fruta madura, desejos ou pão de açúcar, mas é certo que vai um pedacinho do remetente, e o envelope pulsa como coração na mão do destinatário. Nobre, estou relendo o livro do nosso amigo em comum. “Morangos mofados”, mas poderia ser tempo desnudo, carma enclausurado, latência crescente...
O Caio Fernando Abreu anda me fazendo companhia nessas noites quentes e vazias... Eu o leio como quem descobre algo novo a cada instante, conversamos, me chateio até, o Caio sabe ser cortante quando quer ser. Sabe “Aqueles dois”? Figurinhas fáceis nas coleções amontoadas de qualquer estação perdida, com rostos pálidos, mas vivos... Um dia me perguntaram se o peso da solidão era mais forte que o peso do amor perdido. E eu disse que o pior peso é o do amor sentido, não correspondido. Com aqueles dois não era assim, puxados como imã magnetizando um pólo a outro, havia um amor ali, subentendido, humano, carnal, visceral... E um se acostumava ao cheiro do outro. E quando isso acontece o destino torna-se fatal: É amor! E não há explicação lógica ou complexa... É só sentimento e ele se autojustifica.
E pensar que havia me esquecido do Caio naquele dia que você me perguntou... Na sétima série estive com o livro em mãos, mãos curiosas que não liam, mas tateavam, com extrema curiosidade e compulsão, as letras grandes e significativas, nunca pensei que fosse pra sempre, até aquele momento o máximo de sensatez cabia num caderninho de 96 folhas e pautas gigantescas... O tempo passou! E eis que os morangos ainda estão saborosos e degusto o mofo propenso a cada parada arbitrária do meu subconsciente que já não pede, ordena.
Finalizo essa carta com o cheiro da fruta na mão, resultado das sucessivas leituras, agora esse aroma está impregnado aqui,
Para conhecer o blog do Luis Antônio, o poeta de pombal, clique na imagem acima
Os 47 anos de Renato Russo
Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo
De amargo então salgado ficou doce,
Assim que o teu cheiro forte e lento
Fez casa nos meus braços e ainda leve
E forte, cego e tenso fez saber
Que ainda era muito e muito pouco.
Faço nosso o meu segredo mais sincero
E desafio o instinto dissonante.
A insegurança não me ataca quando erro
E o teu momento passa a ser o meu instante.
E o teu medo de ter medo de ter medo
Não faz da minha força confusão
Teu corpo é meu espelho e em ti navego
E eu sei que tua correnteza não tem direção.
Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
A motor e insistir em usar os remos,
É o mal que a água faz quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque
Não vemos
(Daniel na cova dos leões, Renato Russo)
Eu passei o tempo todo definindo de maneira onírica e perversa aquela sensação... Mas a felicidade é muito mais que doses de um drink qualquer. Eu nasci pra ser pássaro mesmo, e não tem jeito... Se me prender, o meu canto fica triste, depois desaparece. Quando eu abotoei a camisa e desci as escadas correndo, com medo, pressa ou desespero, as palavras bonitas ficaram no meu ouvido. Calmamente, sorriso tímido, pactos de sangue, transpiração contínua. Ah, eu só queria beijar na boca, sem sentimento, por uma noite. Eu não tive sono no percurso, nem almejei traçar personas em páginas de uma biografia desastrosa, eu só queria sentir. A intensidade dos verbos chega a horrorizar os pêlos do peito. Frases no imperativo... Então faça o que é certo, agora! Odeio aquelas teorias vergonhosas, ultrapassadas... Eu gosto é do clima pesado de incessante desequilíbrio, óperas de cantores desconhecidos... Gosto de pegar na mão, faço o estilo tradicional. Namoro no portão, embalado pelo medo de ser flagrado... No teorema, vícios repetidos. Quanta burocracia para um simples olhar...

Nascente
clareia manhã
o sol vai esconder
a clara estrela
ardente
pérola do céu
refletindo
teus olhos
a luz do dia a contemplar
teu corpo
sedento
louco de prazer
e desejos
ardentes
(Flávio Venturini)
Agridoce...

“Tudo o que vejo é inconsistente
E nada aprendo, tudo se desmente
Nada do mundo, desde o começo
Eu não conheço, eu não entendo”
(Isopor, Pato Fu)

Porque eu não entendo esse sentimento que me toma, devagar... É isso mesmo, não entendo! E talvez nem queira entender... Simplesmente me fecho de fora pra dentro e de dentro pra fora e calo a boca, fico mudo, me distancio, fecho os olhos, respiro fundo e, às vezes, durmo. Eu não tenho que lidar diariamente com os problemas que me rodeiam, embora eles permaneçam lá, me espreitando e avisando que estão bem vivos. Eu só quero sossego! Mesmo que isso signifique me isolar um pouco. Eu não tenho medo de ficar pequeno na introspecção que é minha aliada, nem de soar antipático na mais insuportável das idéias de soltar um sorriso amarelo no terceiro Bom dia consecutivo que escuto. Eu só quero o silêncio dos meus gritos dentro de mim... Há dias venho ensaiando formas ininterruptas de não incomodar tanto... Fones de ouvido, livros e uma possível timidez... Essa última parte não cola, obviamente... Nem chato, consigo ser tímido. Bocejo para o dia que amanhece, recito baixinho, mantras para que o dia termine logo, sendo que ele apenas começou... Eu não escuto nada quando não quero escutar, nem falo nada se não quero falar e não acredito que isso seja um problema... Esse marasmo, um dia, ainda me mata!
Mulher

Não sei
Que intensa magia
Teu corpo irradia
Que me deixa louco assim
Mulher
Não sei
Teus olhos castanhos
Profundos, estranhos
Que mistério ocultarão
Mulher
Não sei dizer
Mulher
Só sei que sem alma
Roubaste-me a calma
E a teus pés eu fico a implorar
O teu amor tem um gosto amargo
E eu fico sempre a chorar nesta dor
Por teu amor
Por teu amor
Mulher
(Custódio Mesquita e Sadi Cabral)
Diálogo (Por Júnior Creed e Fê_Notável)

Ele: Algumas vezes, já se sentiu assim, perdida, em quimeras tolas? Sob o efeito de um olhar úmido e vazio que se reporta a desejos insanos e inatingíveis?
Ela: Já estive perdida em pensamentos na busca de uma resposta sem pergunta, o desejo de saber algo que os outros não entendem, ou que fingem não entender, algo que está dentro e não fora de mim.
Ele: Então sabe bem o que se passa dentro de mim. (pausa). Sempre acreditei que o mundo seria doado a mim num abraço que misturasse meus sonhos e minhas verdades... Há invólucro, em olhares, aquilo que não posso enxergar mais... Por que já me foi tirado. Ainda resta sonhar?
Ela: Um mundo que misturasse sonhos e verdades, creio que é isso que no fundo desejo. Sei como se sente porque este é um dos meus tormentos: não consigo enxergar tudo aquilo que vejo, em todo o caso, me apego aos sonhos porque se não sonhar, restará algum motivo pra continuar e seguir em frente?! Às vezes penso se sou a mesma de antes... Acho que sonho menos, mas tento manter a chama dos sonhos viva dentro de mim. Acho que o sonho é o que torna a minha realidade mais racional, é uma válvula de escape contra esta loucura cheia de dor que é o mundo.
Ele: Um dia me falaram que todo mistério da vida se esconde no reflexo da verdade no olhar. Que está ali, na íris, as crenças e as descrenças, os atos, o poder de viver... Dizem que quando o olhar se torna triste, já passamos do nosso tempo... Mas o que é o tempo, senão uma imaginação cronometrada. Em todos os espelhos se vêem refletidas luzes que não cessam, mas que nos cegam, aos poucos... O espelho da alma transita entre tons claros e escurecidos, dualizando com as estações os sentimentos na vida... Ah, menina, se eu pudesse ocultar as verdades que meus olhos insistem em revelar...
Ela: Não há como esconder a verdade pura de uma janela tão transparente com esta. O olhar nos mostra a verdade de quem somos e de como somos, ele revela a nossa busca incessante pelo desconhecido da nossa alma... Como pode um olhar revelar aquilo que ao menos somos capazes de entender, que ao menos somos capazes de saber que existe?!
Ele: É mesmo... Acabo de me lembrar de uma música antiga que diz a maior verdade: "O universo vai se abrir sobre o efeito de um olhar...”.
Ela: E é verdade o que diz a canção. Através de um olhar nos levantamos e nos destruímos. Quantas vezes, nós seres humanos, não magoamos uns aos outros por causa de um olhar. Se todos tivessem a dádiva de entender a força de um olhar...

“Tenho um dragão que mora comigo.
Não, isso não é verdade.
Não tenho nenhum dragão. E, ainda que tivesse, ele não moraria comigo nem com ninguém. Para os dragões, nada mais inconcebível que dividir o seu espaço - seja com outro dragão, seja com uma pessoa banal
Caio Fernando Abreu, Os dragões não conhecem o paraíso