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No bolso traseiro da calça que eu usei naquela noite ainda está um bilhete escrito num guardanapo... Meio amassado, com letras borradas, é a prova do sentimento ingênuo e vívido que vislumbrei outrora. Na minha veia, corre uma prece melancólica e interminável... Já não oro na esperança de ser ouvido ou de ter um desejo prontamente atendido, há uma ilusão religiosa que nos permite estabelecer conceitos e construir devaneios a cerca de palavras que se repetem à exaustão. No peito ainda há o som, na mão ainda há o toque tateando as cinzas do cigarro, misturado ao aroma da bebida derramada, gosto de sangue pisado, sangue morto, coagulado... Na atmosfera mais ampla dos sentimentos, junto com o ar, vem a necessidade de viver em prol de ideais absurdos, esqueça os domingos e as noites de lua cheia, estes se tornam infelizes, senão pela beleza esplêndida, escancarada. Duras palavras nocivas, derivadas de um amor ressentido. Amor plantado, desde o início, em forma de semente estéril num vaso de barro, regado com lágrimas secas.

“…Every time I see you falling
I get down on my knees and pray
I'm waiting for that final moment
You'll say the words that I can't say…”
(Bizarre triangle love, New order)
O meu aniversário é sempre num dia quente de outono
Quando olho para o espelho e me vejo num jogo de luzes que me refletem, real e inconstante, as feições mudam diante dos aspectos que absorvo. Eu sou um menino correndo, ainda. Sempre me perguntam se o poder de crescer é gratificante. E eu nunca sei responder... Eu aprendo, apenas. Isso é crescer, talvez. Eu erro muito, estou crescendo, então? Acho muito cedo para estabelecer delírios de sínteses prontas sobre a vida, decálogos super humanos em resumos biográficos. Na minha festa, que faço dentro de mim, os fogos estouram de maneira lenta, num slow motion incessante porque guardo as sensações que atraio. Tento visualizar o passado fazendo projeções que são pintadas com uma tinta de cor berrante, bem exagerada para não sucumbir e fazer dos dramas, minha doce comédia. Eu ficaria orgulhoso de mim mesmo se eu pudesse acrescentar frases e trilhas para cada segundo de minha existência. Melodias esgotadas em letras camufladas, ultrajadas de versos que declinam para uma fragilidade inspiradora, sairia ileso dos permanentes estados inertes. Bálsamo, gritos que me acordam do pesadelo ou do sonho bom, apenas bolas de sabão, resquícios de um lugar chamado infância, terra que habitei, um dia. Hoje a porta da minha alma traz bexigas coloridas como decoração, eu estou mais velho, com um sorriso que vai de um canto a outro da boca e um coração tão grande e vermelho batendo fortemente, de forma que quase me deixa sem ar. Fico feliz de estar vivendo, como já disse Oscar Wilde, tem gente que só existe. Olhando para um ponto que nunca revelei, eu sempre quis fazer 24 anos para ver como era ter a idade do James Dean, agora é a minha chance.

O silêncio das estrelas
(Lenine)
Solidão, o silêncio das estrelas, a ilusão
Eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos
Como um deus e amanheço mortal
E assim, repetindo os mesmos erros, dói
Ver
E o que é que eu procuro afinal?
Um sinal, uma porta pro infinito, o irreal
O que não pode ser dito, afinal
Ser um homem em busca de mais
como estrelas que brilham em paz
Fazendo pressão sob um coração partido, ainda creio no mito de que o inatingível é mera falta de imaginação. Máximas prolixas, no apogeu do suplício do homem, instauram-se inquéritos persuasivos que vão colocar em xeque desde a sua idoneidade até mesmo a sua sensibilidade. Pobres seres rastejantes que aniquilam, punem, prendem e matam com palavras. Chega-se a conclusão que o tempo parou alheio à evolução, a visão que se estabelece do paradoxo colocado é de que enquanto a multidão paira em doses gigantescas de entorpecentes – inevitáveis - há uma outra camada de gente oprimida que faz do riso um escudo perpedincular e anatômico a bloquear qualquer sensação que não seja mecanizada. Compro máscaras de tamanhos adaptados, vendo marchas de sentido retrógrado, troco crucifixo, imagens de santo e balas de revólver para reprimir qualquer forma de pensar individual. Até que o último pensamento livre seja devidamente escravizado em forma de comportamento repetitivo e condicionado.