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“E agora?”
Desde que terminei a faculdade é essa a pergunta que escuto com mais freqüência. Não me incomoda o interesse repentino de alguns pela minha vida, mas acho péssimo ter que dar satisfações. Ao contrário dos “Big brothers” da vida, não tenho recebido milhões de convites, nem estou avaliando propostas tentadoras de tão absurdas, muito menos tenho feito planos consistentes. Estou seguindo o caminho que meu coração quer trilhar, e nesse exato momento tudo que mais preciso é de calma. Passei 04 anos da minha vida vivendo em função da Filosofia, não que isso não tenha sido bom, pelo contrário, foi maravilhoso, mas agora é hora de viver de filosofar e, por conta disso, tenho esperado o tempo, este senhor sábio, jogar as cartas na mesa e me indicar o que é melhor pra mim. Por outro lado também não posso ficar em casa esperando que as oportunidades simplesmente caiam no meu colo, aprendi que nada é em vão, nem sempre fácil, então também tenho que ir atrás. E vou sim, mas no momento certo.
Preciso tirar umas férias desse mundo real, estou cansado de viver a normalidade que insiste em se fazer presente bem a frente do meu nariz. Quero ter uma overdose de falta do que fazer, pelo menos por um mês, e foi o tempo que estipulei para ficar no casulo. E já que estou falando tanto em tempo, prometi a mim mesmo findar neste período os sete romances que englobam o ciclo “Em busca do tempo perdido” do Marcel Proust, e já estou no segundo volume “Um amor de Swann”. Quero voltar a escrever cartas aos meus amigos de longe (e aos de perto também, pequenos bilhetes), ver filmes durante toda a tarde deitadão na cama, com um balde de pipoca e dois litros de guaraná como companheiros inseparáveis. Começar a ler também Gabriel García márquez, pesquisar ainda mais sobre Sören Kierkegaard, ouvir meus sons favoritos, muita coisa alternativa e estranha, enfim, quero curtir essas pequenas férias. E depois pensar muito sobre o meu futuro: um novo curso (jornalismo, jornalismo, jornalismo!!!!!), uma especialização em Epistemologia e Fenomenologia, os dois, talvez, ou nenhum deles. Por enquanto há apenas um ponto de interrogação no bloco de notas... E, acreditem: isso não me aborrece nem um pouco.
“Quero no escuro,
como um cego, tatear estrelas distraídas...”
(Minha casa, Zeca Baleiro)

Parei para pensar, hoje, numa forma barata e rápida de não sucumbir à solidão sem usar pessoas ou ainda corpos anônimos, alheios a minha necessidade de ter alguém nem que seja por minutos que resultarão num gozo vil, numa realidade mórbida, num desejo passageiro. Quero o prazer de não sentir prazer com o gosto da boca que me beija no escuro, e se eu o vejo não o enxergo, mascaro a situação, apago as sensações. Parece um ritual para agüentar a vida, sustentar as mentiras que me forço a acreditar... Quão grande é a certeza de que mesmo que a noite resulte num encontro carnal, ao amanhecer estarei ali, sozinho, um barco à deriva, tendo a sorte como um deus maior.

Day after
Ainda dá pra sentir o calor da sala, da turma, o vapor do tempo soprando agudo na minha nuca, e me resfriando, o vento da UESC revigora minha sensatez. O que faria no dia seguinte? E já sinto o gosto da saudade. Ontem foi meu último dia na faculdade. É tão estranho acordar sem compromisso quando não são férias... O ritual condicionado, os pensamentos alheios e aleatórios, monografia, relatório, aulas... Todos estes fazem parte de um ontem que ainda custo a crer que é passado. Em quatro anos reconheci amigos, pessoas que estiveram ao meu lado me segurando nas minhas próprias limitações. Dizem que a filosofia não se aprende, mas apreende-se, considero-me leigo em frases de impacto, não preciso escrever bonito para definir o que foi o curso para mim. Aprendi muito. E isso basta. Isso fica. Podem me tirar tudo, mas o aprendizado fica. Num dia de verão, fazendo meu primeiro vestibular jamais imaginei que mudaria tanto e em tão pouco tempo. A lista de aprovação em uma tarde nublada veio me dizer que a hora era aquela, crescer era uma realidade inegável. Passado quatro anos desde o ingresso num lugar que me pertenceu, eu cresci. Em mim jaz as palavras do sábio Gonzaguinha, canto a beleza de ser um eterno aprendiz. Agora parto para um universo paralelo, troco os papéis, agora sou mestre, não aquele que detém o saber supremo, mas o que transfere seu saber a um outro, sou amigo do saber, partindo do sentido etimológico do vocábulo ‘filósofo’, que mais que um substantivo, cheira a adjetivo para mim.
P.s.: minha formatura será dia 21, estão todos convidados.

Homem não chora
Ao meu pai
Da sala para o meu quarto há um espaço onde ele gosta de ficar, parece um ritual daqueles sacramentados, cheio de dogmas... Todas as manhãs ele fica lá, sentado, lendo Reader´s digest... E eu aprecio sua fisionomia passiva.
Eu nunca acreditei na idéia de que o pai é o herói do filho, nunca mesmo. Meu pai era distante, frio por vezes, quieto, calado demais... Na única vez que ouvi qualquer esboço de sentimento, ele me olhou e disse que não aprendera a ser carinhoso, mas eu exigia. Talvez faltasse empenho da parte dele. A verdade é que nossa relação nunca foi boa, sempre fui o filho mais questionador e expressivo, me destacava pelo meu jeito insuportavelmente malcriado de ser. Quantas e quantas vezes, eu o ouvi falar mal de meu comportamento, renegando a educação que tivera recebido. Há anos não nos falávamos, sequer morava mais com ele... Eu era o filho que batera de frente, destruindo suas ideologias e instaurando inquéritos sobre suas crenças... Eu fora o filho que pegara os pregos para pregá-lo na cruz. Mas o menino cresceu e começou a cometer os mesmos pecados que o pai e não aceitara que ninguém o condenasse... “Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração...” O tempo passou... Ah, acaso... deitado num leito de hospital, eu o vislumbrei... “Pai, por onde andei?” E aquele mesmo que me ensinara que homem não chorava, derramou lágrimas no travesseiro naquela manhã de outono. Se o bom filho à casa torna, eu não sei... Mas eu voltei.

Ninguém gosta de sentir dor. Pode ser uma dor na consciência, um coração partido, um tornozelo torcido ou um nervo pinçado. Pode ser a dor simples de uma picada de agulha ou daquelas tão fortes que só uma boa dose de morfina é capaz de anestesiar. Pode ser nossa própria dor ou a dor do outro que dói na gente por pura solidariedade. Não importa a natureza, a localização ou a intensidade: toda dor incomoda. Mas quem não sente dor corre perigo. Há pessoas, por exemplo, que nascem com analgesia congênita, que as torna insensíveis à dor. Crianças com essa enfermidade costumam quebrar os ossos sem perceber e podem morrer de ferimentos internos porque não são capazes de sentir dor. Porque a dor é, antes de tudo, um alarme, um mecanismo gerador de comportamentos de fuga, muito útil para evitar que nos machuquemos mais e mais. A dor ensina. Afinal, basta queimar o dedo uma vez para aprender a não brincar perigosamente com fogo.
No entanto, nada é tão simples. Se a dor nos alerta sobre situações que ameaçam nossa integridade física, mesmo assim não gostamos de senti-Ia. A dor pode ser boa como sinalizador, mas é ruim de se sentir (a não ser para sadomasoquistas, que transformam algumas dores em ritual de prazer). Enfim, a natureza da dor é paradoxal.
Durante muito tempo acreditei que a idéia da dor como essencial à vida fosse uma herança maldita de nossa tradição cristã. Afinal, foi o sofrimento de Cristo que salvou a humanidade, como esclarece a primeira carta de Pedro: "Pelas suas chagas fomos curados". Mas depois percebi que essa idéia da dor salvadora (ou útil) é comum em outras culturas diferentes da nossa. Todos os povos têm suas fórmulas e ditados para lidar com a inevitável dor, seja na tentativa de justificá-Ia ou de transformar os limões que a vida nos dá numa proveitosa limonada.
Há um provérbio chinês que diz para não desesperarmos jamais porque "das nuvens mais negras cai água límpida e fecunda". Outro ditado, também oriental, mas mais pragmático, pergunta: "Se tem remédio, por que te queixas? Se não tem remédio, por que te queixas?".
O fato é que todo mundo se vê forçado a lidar com dores, sofrimento e adversidades para poder seguir em frente. Para alguns a dor redime, para outros é provação. Alguns agem como se ela não os afetasse, enquanto outros vivem reclamando dela. No fim, cada um sabe onde o sapato lhe aperta e como faz para suportar seu calo. Oscar Wilde, por exemplo, dizia que "onde há sofrimento há terreno sagrado'; enquanto Edgar Allan Poe, enigmático, afirmava que "para ser feliz até um certo ponto é preciso ter sofrido até esse mesmo ponto".
Quase todos tentam tirar algum benefício da dor, mas há, claro, os que chafurdam no próprio sofrimento. Há também dores grandes demais para serem suportadas e que são apenas vencidas quando se dá fim à própria vida. Respeito os suicidas. Afinal, quem pode estabelecer o limite suportável de uma dor? A medida da dor e a intensidade de um sofrimento são valores muito subjetivos. Há, contudo, um ensinamento budista que diz que basta meditar sobre a dor e tornar-se um junto com ela, absorvendo-a, para que ela se torne imperceptível. Porque se nos voltarmos contra a dor, estaremos nos dividindo e tornando-a maior e mais dolorida.
Finalmente, é preciso ter em mente que, a não ser em raríssimos casos, a dor vai cessar porque até mesmo o sofrimento tem um ciclo próprio e se acaba.
E, como dizem os hindus, "não há árvore que o vento não tenha sacudido".
Vange Leonel
"Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei por quê."
(Camões, soneto "Busque amor novas artes, novo engenho")
Lâmina
Sim, o tempo. Passa nu e cru na minha frente. Despido, pois já não tem vergonha de expor suas vergonhas... Cru, pois já não se importa com a fantasia dos fatos. Nu e cru. Norte e sul. O tempo desfila os traços que ficam. Os ciclos... E ontem eu fiquei a pensar: seriam como férias longas, férias quase eternas, eu saí de casa, fui para um país distante e me acostumei a tal ponto que pensei que nunca acabariam, agora eu estou num trem retornando para minha casa, minha terra natal. Pela janela vai passando um trailler com cenas que só agora capto com mais precisão. O menino que pensou que o mundo era limitado, atravessou o caminho escuro e se perdeu num bosque estranho, sequer teve medo. O menino cresceu! Esqueceu as fábulas, as histórias, agora fecha os olhos, se banha na certeza de que viveu momentos bons, e ‘nada vai conseguir mudar o que ficou’.
O tempo é lamina de corte desigual. Fica um pedaço aqui, outro lá. Um pedaço trago comigo, outro pedaço deixo lá atrás.
