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Luana Heth,
É a quarta vez que tento começar esse texto. Sem dúvidas um dos mais difíceis... Prendo-me nos braços nada aconchegantes da saudade, mais uma vez, para dizer o quanto sentirei sua falta. Tento de todas as formas vislumbrar o quanto essa viagem vai ser interessante para você, mas sou ariano egoísta, como bem sabe, e admito que vou contar as horas, os minutos e os segundos para seu retorno. Lu, cada momento contigo tem um significado mais amplo, mais intenso... A gente se entende de uma forma tão linda que as palavras são meras coadjuvantes. Basta um olhar e um já sabe o que o outro está sentindo. E eu nunca tinha me dado conta disso até aquele dia que vimos “aquele que eu não ouso falar o nome” em pleno Shopping e saímos pela tangente sem balbuciar qualquer ruído. Em seguida, risadas aleatórias. E por falar nelas, foram tantas... E vou guardar o ruído do seu sorriso na minha caixa de pandora particular, tenha certeza disso. Como fotografias, as cenas passam em minha mente... Já passamos cada coisa juntos, hein? Recordo o nervosismo quando fomos ministrar aquele curso livre sobre Existencialismo. Eu defendendo Kierkegaard, você Sartre. Selecionando textos, ligando para os participantes (era Olívia ou Olive?). A UESC selou nossos destinos como ferro quente em couro de boi, foram quatro anos mágicos. A viagem para Salvador e a bagunça no Teatro Castro Alves, a euforia no instituto Goethe, as aulas tediosas, os seminários, as caronas. Dias de sol e pouca chuva, na nossa amizade nunca teve um dia cinza, não vale chorar vendo “Dançando no escuro” longe de mim. Lá em outro continente, talvez (e isso é normal que aconteça) você venha a me substituir no seu coração, mas não me esquecerei de nada. Nem daquele dia que eu estava péssimo, descobrira que estava doente - precisaria operar - e na recepção da clínica, do outro lado da linha, eu ouvi: “calma, Ju, vai dar tudo certo”. E deu certo mesmo... Dias depois, já operado, quando eu acordei da anestesia, sua imagem estava em minha frente, no hospital. Naquele momento percebi que você já era parte da minha família e que era impossível desassociar sua imagem da minha existência. Tenho questionado Deus ultimamente, mas se Ele existe, Ele deve ser um cara bem bacana por ter me dado bons amigos, por ter me permitido escolher uma família, e você é minha irmã-amiga-confidente-fiel, transformou o meu monólogo num dueto articulado. Acho que não suporto ver o avião alçar vôo sem derramar lágrimas, mas preso na garganta, com voz embargada fica um desejo de boa sorte que ecoa pelo oceano e vai parar no céu de Lisboa, em forma de qualquer estrela que piscar. Esteja certa que esta é a representação que eu viso, para sempre saber que estou torcendo por sua felicidade. Aviso desde já que exijo tratamento VIP nas conversas por telefone ou por MSN, que quero fotos atualizadas suas e dos “good boys” portugueses no álbum do Orkut e cartões europeus nos finais de cada ano. Eu vou caminhar pelas praças de Itabuna, tomar vinho e me recordar que elas sabem um pouco da nossa história, são testemunhas mudas, fiéis, de alguns momentos, de falas que só eu e você trocamos. Percebo que criaremos vínculos com novos sonhos de diversas cores, mas a trilha sonora ainda será “The immaculate collection”. E eu vou me lembrar todos os dias... Todos os dias. E quando a gente se reencontrar, vamos olhar na mesma direção, como sempre fizemos, sentar na beirada da cama e rir alto, rir de tudo. Um abraço com gosto de sol, de sal ou de saudade nos lembrará que não há distância quando se pensa com o coração. Assim seja!
Júnior Creed
P.s.: "Ensinaram-me um verbo cuja beleza demora a compreender: cativar. Não é aprisionar, reter ou enredar. É pôr passo ante passo, cada um mais bem pensado e sentido que o anterior, para conseguir que uma coisa ou alguém se propicie a virar para o que somos, queremos, onde estamos e precisamos ir. Pois a verdadeira esperança consiste em cativar, calmamente, o destino." Miguel Esteves Cardoso
Pedaço
do Lat. pittaciu < Gr. pittákion
s. m.,
uma das partes em que se dividiu qualquer coisa;
bocado;
fragmento;
porção;
pequeno espaço de tempo.
Nas poucas verdades que admito para mim, sei que poderia passar a tarde inteira deitado num canto da sala, desenhando com giz de cera a história de nós dois. Se a vida é uma boate agitada, eu deveria ter sido barrado na porta, não tinha meu nome na lista de convidados e entrei de penetra nessa confusão. Eu não tenho razões para fugir dos seus olhos, mas me sinto como criança, às vezes: quero independência, mas não quero ser responsável pelos meus atos. Agora relâmpagos iluminam minha sensibilidade. Com calma, percebo que os erros foram apenas meus. Mas talvez seja tarde demais... Nós já crescemos um para o outro. Há tantos monstros dentro de mim, parece que os fantasmas escolheram uma única hora para acordar. E eu ainda tenho medo. Em outro momento eu passaria na frente da sua casa galgando o ver à surdina, pois trazia consigo o sorriso que me acalmava. No sórdido carrossel – de emoções que nos envolveu -, giram os sonhos que eu ousei recriar, sonhos nostálgicos, coloridos e vêm espetados em forma de algodão doce. Eu evitaria a regressão se a sua mão agarrasse à minha no trem fantasma e, ao me sentir seguro, o beijasse na saída, na frente de todo mundo. Parece que ainda escuto-o falar: e quem se perdeu na saudade daqueles dias, me levou na mente como eterno companheiro. Profecia...
“...Se fosse só sentir saudade
Mas tem sempre algo mais
Seja como for
É uma dor que dói no peito
Pode rir agora que estou sozinho...”
( Angra dos Reis, Legião Urbana )

Mais um
(Para ser lido ao som de Desfigurado de Ney Matogrosso)
Acredito que suas digitais ainda estão em cada centímetro de meu corpo, apagado, como aquele cigarro que fumamos depois do sexo vazio e roto. Me lembro de ter lavado meu rosto depois e não ver refletida minha real imagem na frente do espelho, talvez aquela fosse uma projeção de algo que eu nunca quis ser, mas estava me tornando. E é tão ruim a gente se dar conta que no meio de tantos personagens articulados, ficamos com o papel de coadjuvante. Quando eu lembro das mentiras faladas, baixinho, no ouvido, pergunto ao meu inconsciente qual remédio anestesiou o meu bom senso e me deixou sedado à deriva numa esquina sem sul nem norte, mas com um braço no meu ombro, uma voz de tão macia que me sufocava, massageava meu coração de brinquedo. Sim, de brinquedo, não estava dormindo quando te vi puxar a corda dele e me deixar ansioso, sorrateiro, por minutos de prazer tão intensos, que parecem ter durado uma eternidade. Não dói a dor da ressaca moral quando avisto sua sombra amarrar o All star encardido, bater a porta e ir embora, com a desculpa de que não consegue se apegar, que tem um amor mal resolvido, que foi culpa da carência na infância, que é respaldo da adolescência na rua, marginalizado, que não sente tesão por foder mais de uma vez com um desconhecido, com gente que pega na rua... Mudam-se as pessoas, permanecem as mesmas desculpas, percebo. Talvez eu tenha sido ingênuo, achando que uma transa esporádica aqui e ali preencha meu lado mais animal. Mas como já disse alguém, o homem é um animal sentimental. Queria pegar um revólver, estourar a caixa cefálica e mandar para o espaço esse meu romantismo idiota, cretino, azul-anil, denso. Ouvi os passos na escada, te senti descendo, taquicardia. Parece que cada pessoa que deita na minha cama deixa uma fragrância, e o seu é um almíscar vagabundo, cheiro doce de veneno misturado com porra. Te olho pela janela, avisto só mais um que se perde no escuro da noite que não quer acabar. E é isso que mais machuca: você foi mais um. Apenas mais um. E não posso mudar isso.

Darkroom
(Proibido para menores de 18 anos)
Tentado pela curiosidade ou ainda pelo desejo latente no baixo ventre, adentro o quarto escuro, arredio, cego, mas propenso a me deleitar do magma que vai escorrer desse vulcão que há
P.s.: E o Vale da solidão completa um ano de existência. Sem nenhuma pretensão de ser linear, calmo, frio ou intenso. Agradeço a todos que acompanham meus dilemas, minhas quimeras e que fazem da minha vida menos solitária, menos densa, menos monótona.

Lembro que ganhei de minha irmã mais velha o LP ‘As quatro estações’ da Legião Urbana. Foi até engraçado, porque eu não parava de cantar a música Monte Castelo, que passava num comercial da extinta TV Manchete, eu me apaixonei pelas frases da canção que, mais tarde soube, continha trechos de um capítulo da Bíblia. Ali nasceu um afeto pela banda e em especial pelo vocalista Renato Russo, nem lembro qual a minha idade e não me recordo se já tinha escutado outras canções da banda anteriormente. Após um tempo veio a minha formatura da primeira série do ensino fundamental, no final da festa havia uma homenagem aos pais e seria utilizada a canção ‘Pais e filhos’, eu sabia a música inteira, e a canção era enorme, nem minha professora sabia cantar toda. Depois vieram entrevistas assistidas e lidas, recortes de revistas e jornais. E eu seguia à risca os ‘ensinamentos’ do Renato Russo, passei a ouvir The Smiths e Joy Division por que ele falara numa entrevista que eram as grandes influências na composição musical da Legião. Passei a pesquisar tudo que aparecia explícito em algumas letras: Eros e Thanatos, Persephone e Hades, dentre outras citações. Nunca esquecerei o dia da morte do Renato Russo... Como de costume pela manhã, liguei o rádio. Na FM estava tocando uma música da banda (Vento no litoral), depois outra música, outra e mais outra... Antes do comercial, o locutor anunciou a morte do cantor, tocou ‘A via Láctea’
Mosaico
Fazendo esforço para não transparecer a dor da ausência (consentida) acendo as luzes, tento ler, ouço músicas e o pensamento ainda está longe, atravessa o continente e vai buscar lá, além e aquém de mim mesmo. Maldito é o corpo que sente falta do calor de um outro, que busca o cheiro que parece estar impregnado em suas narinas, horrendo é o desejo de quem se fez presente em milésimos de segundos e ainda assim deixou sua marca como ferro quente na alma de outrem.
Seguro no silêncio que me abraça, ainda creio na máxima de que depois do céu, há um outro céu e eu quero ir pra lá sem precisar morrer... Tentado pela simples sensação de estar calmo, eu me apego aos vestígios que me foram deixados: o livro marcado, a taça quebrada, os cacos de vidros...
Tem gente que parece ter sido idealizada por algum cientista maluco que brinca de Deus num laboratório desses de filmes antigos de ficção científica; Tem gente mais fria que ponta de iceberg, e se torna gelo a ser derretido num gim qualquer, degustado naquelas noites de solidão intensa, masturbação mental e ejaculação tardia; Tem gente que tem a mania de se prender no quarto escuro do passado e almeja uma claustrofobia dramatizada para chamar a atenção de outros seres humanos que adoram fazer fantoches humanos de corpos inanimados.
Esperando algo definitivo, ainda que a margem de esperança se definhe, covardia seria atirar-se do 15º andar de minha consciência irreal ou dar um tiro certeiro direto na ilusão passageira. Pergunto o que é isso que se chama obsessão ao observar com calma a subterrânea complexidade do que estou me formando.

Eu tapei os olhos e escondi a visão grotesca dos sentimentos que insistiam em pairar na minha frente. Quem dera ter feito isso antes... Nem sempre é fácil não deixar de ver a noite que insiste em cair nesse crepúsculo que é um coração partido em estágio avançado de consunção. O ocaso da dor que penetra e tinge os dramas faz das idéias vivas, ideais mortos. Eu fechei os olhos com as mãos abertas para garantir que nenhuma fresta de esperança entrasse como luz por entre os cômodos que há