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Kitsch demais pro meu gosto...
Perco-me tanto em sensações loucas que crio, que ao perceber o desvario eloqüente, já não sei quem eu sou: se personagem de minha mente fragilizada ou se sou isso mesmo, resultado de influências externas, causa única e primeira de algo que me tornei. Eu rio alto, escandalosamente, e choro na mesma intensidade para chamar a atenção. Sou calmo, na maioria do tempo, mas trago escondido um olhar de Bette Midler, que me faz inesgotável na lucidez dos fatos. Pinto minhas cenas num vermelho-almodóvar tão intenso que dói nas vistas de quem se atreve a olhar essa promiscuidade visual com toque expressionista. Se eu fosse um filme, seria um filme trash, cujo roteiro mexicano, seria dirigido pelo Tarantino, repetindo os clichês de estilo noir. Eu venço pelo exagero. Trago comigo cores e dramas intensos, que nem um olhar sensato suaviza a interpretação. Sou covarde como um leão na jaula, mas vivo como cobra num ninho, sou over, blasé, sou duelos enfrentados por tantas personas dentro de mim. Gosto do gozo fácil, da hora desmarcada, sou uma cena desfocada de películas antigas, James Dean correndo em seu carro e estraçalhando em forma de mito, em poeiras cósmicas, com luzes de letreiros néons piscando irritantemente sob o capô do automóvel. Eu gosto do luxo do lixo, e fuço-o usando máscaras para evitar a expansão dos gases lacrimogênios, porque embora não aparente, eu sou sensível. Eu admiro ídolos de papel, gosto do mau gosto e de meus sentimentos pouco nobres. Arrisco-me a dizer que sou uma expansão de algum sonho meu, sou tão fútil, tão inocentemente vulgar, tão antigo e casto, tão kitsch... Guardo lembranças e finjo esquecê-las, não entendo muito as razões do outros, mas as minhas são normais: eu quero o muito do pouco, todo dia.

9 canções
“E se eu achar a tua fonte escondida, te alcanço em cheio, o mel e a ferida...”
(Cazuza in Todo amor que houver nessa vida)
Desça a mão e chegue mais perto de mim... Mais perto, assim, bem colado. Quero sentir sua respiração junto à minha. Quase boca na boca, narizes roçando e mãos geladas, trêmulas. Agora perde o medo de me sentir, como eu sempre imaginei. Numa relação sexual, o ato em si, feito com amor, é divino aos olhares dos deuses. Permissivo, feio e anormal é quando somos forçados a fazer algo que a alma repudia. O ato vira uma cena qualquer, num teatro vazio, sem aplausos, nem êxtase, mas vaias internas da culpa, do arrependimento, do vazio do dia seguinte. Mas não quero ficar assim com você, quero ficar bem junto. Somos quase um, duas peças de um quebra cabeça de duas peças, eu e você, o encaixe mais perfeito forma a totalidade da figura. Quando eu entro em você, arrebato sua alma, faço dela apenas um complemento da minha, esta agora extensão da sua. Perdidos sob suspiros intensos, levitamos, saímos da nossa consciência. Amar é o passeio consentido da alma, a alma respira e o coração bate bem rápido, parecendo explodir, mas o que explode em seguida é o néctar que sai de mim, avisando que o amor é santo e precisa ser batizado...

Os Sonhadores
("Os que sonham de dia são conscientes de muitas coisas que escapam aqueles que sonham apenas à noite." Edgar Allan Poe)
I
Cansei. Já não faço tanto esforço para compreender. Pareço viver numa realidade fora da órbita intencional e declino nessa Via Láctea que desenvolvo sob meus domínios. Alheio aos extremos que insistem em me guiar, quem sabe o destino, Deus, deuses ou sei lá o que rege a nossa temporada serena, traga as respostas para os questionamentos que não ouso suscitar. Há tanta coisa errada na minha vida... Tão novo, diriam, e tão velho. Sugiro um trato comigo mesmo: fingir para fugir.A partir de hoje não mais serei eu, ou pelo menos serei um outro eu inconsciente, uma nova identidade dentro de mim. Acabarei por traçar metas e fazer planos sombrios, sobre ser alguém cuja maior qualidade é apenas ser. Porque tudo o que eu preciso hoje é sair mais cedo de mim, espairecer longe de mim mesmo. Sair, beijar... E um beijo pode iluminar a noite preta de olho feroz, olho de lua cheia, sem São Jorge, olhos perdidos que seguem o vazio.
II
Tenho pensado tanto em suportar a dor, logo eu, ser humano amor seu, constituído de músculo, carne e osso, pele, cor... Tenho tanto a falar e ainda assim basta um simples olhar seu e me faltam elas, as palavras, mas você me entende no silêncio que nos cerca e seguimos ali e aqui, dentro e fora de nós mesmos, ao sul e norte dos corpos que falam mais que o silêncio meu. E seu. Quem ama não pensa em linearidade, talvez os filmes Hollywoodianos de outrora tenham me deixado mal acostumado: quero uma continuação de histórias com finais felizes, onde o amor sempre vence, mesmo que sujeito a criticas fundamentadas apenas ao desuso da razão. Pensando bem, estar longe é estar perto,
...
P.s.: o Vale da solidão foi selecionado como um dos blogs legais do UOL. Confesso, sem modéstia, ter ficado surpreso com a escolha, mas imensamente contente. Obrigado mesmo! Brevemente colo o selinho aqui no layout! Veja a lista completa dos blogs selecionados clicando aqui

Eu vivi amores estranhos, disse “Eu te amo” e não fui correspondido, já chorei calado com o coração na mão, tentei fazer cena – e fiz as piores -, briguei com o mundo acreditando que era o melhor pra mim, mandei cartas, rasguei cartas, sucumbi à solidão necessária, tomei 40 mg de Fluoxetina e apaguei consciente, fiz folia, fiquei com muito medo, perdi meu tempo com o que não valia a pena, li os livros errados, li os livros certos, já cantei alto para ver o mal se espantar, me assustei com meu grito de dor que de tão alto acordaria uma cidade inteira, ganhei amigos, perdi colegas, expulsei gente da minha vida, coloquei pessoas inúmeras dentro de mim, fingi rir quando minha vontade era chorar, sorri com ironia, menti, neguei, vi filmes clichês, tomei refrigerante no lugar de água, senti preguiça, desejei a morte de diversas personas e nenhuma morreu, já tomei um porre para espantar a melancolia, senti fortes dores numa maldita ressaca em plena segunda-feira...
Hoje menos coisas me deixam desesperado, não que menos coisas me comovam, mas é preciso um pouco mais pra me fazer chorar. Hoje eu me sinto mais maduro. Hoje eu me sinto livre.

Brilho eterno
("Tua sombra me espera atrás de cada luz". Júlio Cortázar)
I
Idéias tolas baseadas em lembranças, momentos de tamanho companheirismo que não havia limites entre nossos corpos, nossas almas, nossas vidas. Ninguém, nem eu, nem você, saberia dizer onde um terminava e o outro começava e até mesmo o vazio era preenchido por alguma coisa nossa, só nossa. Dizem que quem ama não doa o coração, ele apenas empresta. Falam também sobre a necessidade de um final em histórias cujos roteiros ultrapassaram a linha de interpretação dos atores e confunde, agora, os espectadores. Sinto informar que quero meu coração de volta, que a nossa história precisa de um ponto final e não meras reticências. Continuamos revivendo fatos que já se consumiram, que já não nos pertencem. Desperdiçamos, assim, nossa paciência com coisas que sabemos que não tem volta. A casa foi demolida e com ela nossos sentimentos, a poeira nos cegou...
II
Eu poderia chamar seu nome no escuro que tende a nos proteger ou nos camuflar, mas prefiro chamá-lo no claro da luz que brilha incessantemente para nós dois, assim vejo-o sair em palavra de dentro de mim e ganhar a imensidão na minha frente. E permitir que a sua liberdade seja conquistada como extensão da minha é o meu desejo mais pueril de tão secreto, depois de séculos mantendo presa essa necessidade de sua companhia, que suas asas sejam velozes e consiga trilhar os ares e conhecer novas terras, ou pessoas, ou bocas ou corpos. Se guardo a esperança de um retorno? Nunca digo nunca, embora tenha dito duas vezes numa única frase, mas me acostumo com a ausência a tal ponto de chegar uma hora e nem perceber que você um dia poderá fazer falta. Como diz numa velha canção – nossa – “minha vida renasceu e amei estar sendo amado”, mesmo que agora esteja incompleto, que o quebra-cabeça de duas partes únicas que se uniam esteja desfalcado. E se amo, deixo livre...