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Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.
(Caio Fernando Abreu)

Voltando...
Se fosse ele e não eu, talvez estivesse certo, mas não estava. Falta tanto tempo até a gente se rever que penso que certos encontros são como viagem de ida, sem volta, a uma terra antiga, algo como desbravar a Islândia, porque eu não consigo pensar em lugar mais longe, mais frio ou mais bonito. Nossos encontros eram assim. Frios e bonitos. Nem sempre pela surpresa, mas ainda assim por ela. Pés frios na beirada da cama me lembram noites de invernos, sorrateiras, intensas, intercaladas entre respirações ofegantes, calorosas e beijos de boa noite. E falo de um amor secreto, um amor novo. Eu tenho passado os meus dias inspirado, não pela chegada, mas por uma saída tardia de tão necessária. Tão leve, tão zen, estar sozinho mesmo atrelado a alguém é tão miseravelmente triste...
O dia passa tão rápido... E penso, agora dentro do trem, discman tocando suave uma melodia de adeus, que imita canções de reis. eu passo longos dias acenando pra meu espectro que fica na estrada, girando com os postes, sem nenhum vestígio de saudade. Dois jovens honestos - até para fingir com delicadeza - seguem caminhos opostos.

Psicodrama
[ Para ser lido ao som de Skap do Zeca Baleiro ]
Para L., nas Minas Gerais, por quase ter pintado tinta nessa tela cinza
Tenho pensado menos em você do que eu imaginava poder? Jura? Juro! Há, pelo menos, duas horas que não cito seu nome em pensamento e rever sua fisionomia já não acelera tanto meu coração. Fui cruel demais? Não, imagina. Você foi cruel demais consigo, eu diria. Tá bom, então, pense o que quiser. Mas é verdade, você se doou demais. E quem não se doa quando ama? Ah, não me faça perguntas que não sei as respostas. É? É. Pois bem, fale-me do que signifiquei, do meu papel na sua vida? Sinceramente eu não sei... Você foi a pessoa certa na hora errada. Como todos, você prefere usar frases feitas para justificar o injustificável. Não, não é bem assim. Mas é. Eu não queria falar que não queria mais porque eu enjôo fácil de relacionamentos sólidos. Mas doeria menos, acredito. A verdade é sempre irremediável. A dor também. Então temos que evitá-la. Ainda assim prefiro uma lágrima de tristeza verdadeira. Eu não. Somos tão diferentes. Sou de peixes. Eu sou de aquário. Não nos completamos. O meu aquário é um oceano e não me limito à extensões mínimas. O meu amor tinha dimensões oceânicas. Tinha? Tinha. Você fala palavras grandes. Extensões. Oceano. E você fala palavras fortes. Dor. Amor. Eu tenho medo. Eu também tive. Mas você foi embora. Para sempre. Nada é eterno. Tenho estado sozinho. Eu também. Depois que você partiu, tive visões suas em cada cômodo da minha casa fria, mas era minha imaginação que acostumada com sua presença, não queria aceitar sua ausência. Quem vai é tão bobo que não percebe que só se ama uma vez, o que vem depois do amor vivido é desejo da carne, pedidos da alma, mas pra dilacerar o coração mesmo, só uma vez. E nem é privilégio de poucos, como diriam os pessimistas. Quando a porta do céu abrir, eu vou deitar agarradinho em alguma nuvem velha, mas macia, e aguardar o seu retorno.
Tem gente que se retira de nossas vidas e deixa mais cicatrizes do que se tivesse acertado os corações com flechas de lâminas enferrujadas afim de encher de tétano nossas almas.

Da paixão platônica ou A dança das cadeiras
“O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente.o amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe de graça - que se chama paixão.”
Clarice Lispector in A paixão segundo G.H.
E de repente surge uma identificação sei-lá-do-quê com o outro e você se vê tão perto de chegar ali onde nem sabia que existia, que a sensação é mais intensa que verdadeira, sutil que singular, excitante que ameaçadora, perigosa,mas deliciosamente ousada. Não há muito o que fazer, senão se entregar aos embalos, ao clímax, ao todo, ao mundo, ao que – naquele momento – é inevitável. No mais, é preciso de lucidez, com o passar do tempo a gente descobre que o bálsamo ao que estamos enredados é translúcido demais, e agora esse estado – antes momentâneo – é irreversível, porém como um pêndulo, pesa mais sob um lado, parece girar de maneira contraditória. Há pesos iguais que pesam diferentes na balança, e isso é visível. Depois de um tempo, já leram os mesmos livros, já viram os mesmos filmes, já falaram histórias suas que deixaram de ser inéditas e passaram a ser reprises constantes tanto para um, quanto para outro... Tudo tende às mesmas coisas, tudo é repetição, até os elogios são os mesmos.

Sobre a dor
Se eu sigo os seus passos e firo meu coração, há uma parcela de culpa minha, mas que também é sua. Não que eu esteja delegando a você toda a responsabilidade de manter um coração partido, destruído. Eu não seria tão leviano. Mas diga-me olhando em meus olhos – para que eu tenha certeza que você não se perde no vazio da inexpressividade – se é justo sufocar uma dor que foi causada por outrem?
“Eu só aceito a condição de ter você só pra mim. Eu sei, não é assim, mas deixa eu fingir e rir.” (Sentimental, Los hermanos )

Mulher...
A sociedade determina ao homem o papel de durão, grosseiro, agressivo, e nesse ponto é cruel demais ao masculino, pois parte de princípios pré-históricos e é a mulher que nos tira da caverna, demonstrando que força brota dos corações mais calmos. Um dia, há muito tempo, ouvi uma frase que dizia que conhecer as mulheres é aprender a ser mais humano. Naquele momento, para mim, nada soaria tão sem sentido quanto essa revelação. Me questionei os porquês, os fatores, as relações e hoje compactuo dessa máxima. As mulheres são os olhos sensíveis da realidade. Quando me vejo em qualquer instante da minha existência, percebo que sempre estive com uma figura feminina do meu lado, para me trazer ao mundo, para cuidar de mim, cantar uma canção de ninar, me fazer dormir, me ensinar a chorar, me fazer acreditar na doçura e na fragilidade, me inspirar na garra e na confiança. Aprendi e aprendo muito com elas, desde minha mãe e sua imagem que inspira fortaleza, às namoradas que tive, às amigas maravilhosas, além das cantoras, poetisas, pintoras e tantas outras Marias que exprimem sua feminilidade com gestos, toques e sutilezas... A impressão que tenho é que sempre vai existir uma mulher no meu caminho, porque eu confio nelas e eu as atraio, não no sentido sedutor do vocábulo – ou sim, talvez – mas no ato de me ver refletido muitas vezes na alma de um útero. A mulher gera, pare... O feminino é dúbio a tal ponto que se uma mulher traz um filho de sexo masculino dentro de si, comunga do anima e o animus junguiano e ainda assim continua mulher, prazer este que o homem só tem se penetrá-la e ainda assim falta-lhe sensibilidade para perceber que está tocando e compartilhando algo sacro. Todas as mulheres que convivi me ensinaram a amar mais um pouco, seja o amor ágape da auto indulgência ou o amor eros – voltado ao sexual -, e eu sou resultado de um cada pouquinho delas, e me defino como cantou Renato Russo em 1º de Julho, a homenagem à mulher que eu invejo por não ter feito: “Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher,minha mãe e minha filha, minha irmã, minha menina, mas sou minha, só minha e não de quem quiser.Sou Deus, tua Deusa, meu amor. (...) Alguma coisa aconteceu, do ventre nasce um novo coração...”