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Anjos não choram
Eu mesmo, acionista majoritário de meus sonhos, me prendo neles porque eu tenho medo de não ser compreendido. Eu não quero que o objeto de meu desejo, a razão do meu afeto, saiba que sem ele não estou tão bem, que tenho chorado no escuro com medo da claridade me denunciar, que antes dele, não havia um alguém tão necessário de tão especial e depois dele, muito menos, só ficou o vazio. Nem pense que nenhuma cápsula protetora me protege do que eu sinto, porque eu sinto, eu gosto, eu amo, e não posso ceder. Rasgo fotos, escondo fotos, queimo fotos, com a finalidade de apagar lembranças, esquecer rotinas e fugir do pensamento que consome... Encho meu quarto com livros velhos, poeiras, alguma coisa que me faça companhia, uma canção, um desejo vazio, outros homens, inúmeros, nenhum com o cheiro dele, porque eu procuro em cada parte dos corpos algo que me preencha da solidão. Tudo inspira gás lacrimogênio, e eu finjo me perder em fumaça de cigarro, faço desenhos em papel almaço e os espalho na sala, escrevo poesias nas paredes claras de um apartamento pequeno que só cabe meu pensamento e eu, lá embaixo as luzes da cidade iluminam corações solitários anônimos, meu Deus, quem anda sem sono por essas ruas imundas? E eu desço as escadas na escuridão, tateando os degraus com os pés descalços, tentando achar o que nem mesmo procuro, o que nunca será entendido, o que eu não sei ou não queira admitir. Talvez eu deseje encontrá-lo em alguma esquina movimentada, tarde da noite e ele vir me abraçar sem graça e eu o chame para nosso lar, e nos entrelacemos em lençóis limpos, e que o deleite seja o nosso prazer juntinhos, como os ponteiros e as horas que passam insistente. E depois ele me deixe dormir até tarde do outro dia, um bilhete simplório deixado na cômoda dizendo ‘Você nunca vai saber que eu te segui com os olhos, aprendi o seu caminho, fiquei de tocaia e seqüestrei seu coração’. Eu não quero que ele saiba que eu ainda nutro esperanças medíocres, que os anjos choram quando suas asas estão machucadas demais para alçar vôos, eu não quero...

All is full of love
Avista a nuvem no céu e brinca fazendo desenhos imaginários nas nuvens, sai correndo, aceita a vida como um presente, dá uma risada alta e os olhos brilham de satisfação. São tão poucos e raros, pensamos. Mas são tantos e não notamos, pequenos momentos de felicidade que chegam e partem, porque nunca demoram tempo suficiente, e nem nos damos conta de quão válidos são eles. Para nos mostrar que estamos vivos, para aceitarmos que a dor é necessária e quando ela passa, resta-nos o aprendizado. Ninguém quer ficar sozinho, então aprende que para o outro vir temos que ser adaptáveis, sejam às soluções de nossos paradoxos internos ao novo que se aproxima. Meu coração é uma mistura de loucura e reticências, cansado de guerra, um cadeado enferrujado de corrente frágil, mas que pulsa incessantemente, não me desfaço mais de nada, apenas disfarço, tudo está cheio de amor...
“Amo a vida
Fascina-me o mistério de existir
Quero viver a magia de cada instante,
Embriagar-me de alegria
Que importa a nuvem no horizonte,
Chuva de amanhã?
Hoje o Sol inunda o meu dia”
[ Helena Kolody]