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Meu coração
(Em comemoração aos 02 anos do Vale da Solidão)
E aonde existir perguntas que meu coração leve respostas, para elucidar sentidos – aos sentimentos ou a vida, maldita, sedenta por perenidade -, ainda que eu não saiba quem sou eu, e sinta a necessidade de dar cor ao blecaute que é viver, cor e ação, coração, que só resta a ação da cor, num arco-íres descolorido.
Meu coração é uma ferida aberta, uma hemorragia contínua. Médicos fazem curativo e nada cessa, a dor é tão forte que eu perco os sentidos.
Meu coração é um anjo de asa quebrada que não consegue voltar para o céu.
Meu coração é uma camisa velha pendurada num cabide. Ao lado dela há uma foto de uma montanha. E eu nem lembro qual relação há entre ambas.
Meu coração é um livro aberto, num parágrafo grifado, Lê-se que o ‘amor é fogo que arde sem se ver’ e eu rio dessa metáfora absurda.
Meu coração é uma passagem secreta num obscuro labirinto. Do lado direito há a razão, do outro lado, a emoção. E eu não sei qual é a porta de saída.
Meu coração é o Maracanã em final de campeonato, fogos estouram num show de pirotecnia, e eu faço parte do time perdedor. Saio chorando, em meio a fumaça de cigarro.
Meu coração é a Bela totalmente adormecida depois de morder a maçã envenenada.
Meu coração é um trailler kitsch, dirigido por Lars Von Trier e escrito por Woody Allen. Fracasso de bilheteria. Experimental demais.
Meu coração é uma canção inédita do Ian Curtis, cantada pelo Jeff Buckley. Quem ouve, pensa
Meu coração é uma expressão em latim que eu não sei a tradução. Alguns dizem que é uma expressão usada pelos padres do século XVIII. Eu acredito que seja um palavrão.
Meu coração é uma criança brincando num parquinho no final de tarde. O sol se põe e ninguém vai buscá-lo.
Meu coração é uma viagem de trem, só de ida. A mocinha acena com o lenço e seu amado chora sentado sozinho num banco da estação.
Meu coração é uma saudade constante de casa, lugar que eu me sentia protegido.
Meu coração é um vale da solidão onde um jovem filósofo – que acabou de perder seu pai – chora suas lamúrias.
Meu coração, onde está meu coração? Em alguma viela suburbana sendo leiloado por lance mínimo de R$1,00 e ninguém quer arrematar.
(Por Júnior Creed, inspirado numa crônica de Caio Fernando Abreu, leia a original aqui)

Uma canção
Hoje eu quero uma canção que fale de esperança, que retrate em verso e prosa a felicidade da paz interior, seja sua melodia densa, com frases curtas, mas que me diga mais do que eu possa captar, que fale de abraços, de chegadas, de amores que vieram e ficaram, das cores de um arco-íres que foi desbotado pela chuva, mas que em seguida brilhou em sete cores e me deixou feliz. Quero uma música com letra fácil, para que eu aprenda rápido e saia cantando... E quando me sobra a solidão plantada pelos cantos, é no canto que eu a espanto, que pego na mão da alegria e vou passear.

“Somos todos imortais. Teoricamente imortais, claro. Hipocritamente imortais. Por que nunca consideramos a morte como uma possibilidade cotidiana, feito perder a hora no trabalho ou cortar-se fazendo a barba, por exemplo. Na nossa cabeça, a morte não acontece como pode acontecer de eu discar um número telefônico e, ao invés de alguém atender, dar sinal de ocupado. A morte, fantasticamente, deveria ser precedida de certo “clima”, certa “preparação”. Certa “grandeza”.
Deve ser por isso que fico (ficamos todos, acho) tão abalado quando, sem nenhuma preparação, ela acontece de repente. E então o espanto e o desamparo, a incompreensão também, invadem a suposta ordem inabalável do arrumado (e por isso mesmo “eterno”) cotidiano. A morte de alguém conhecido ou/e amado estupra essa precária arrumação, essa falsa eternidade. A morte e o amor. Por que o amor, como a morte, também existe – e da mesma forma dissimulada. Por trás, inaparente. Mas tão poderoso que, da mesma forma que a morte – pois o amor é uma espécie de morte (a morte da solidão, a morte do ego trancado, indivisível, furiosa e egoisticamente incomunicável) – nos desarma. O acontecer do amor e da morte desmascaram nossa patética fragilidade.” (Caio Fernando Abreu)
Hoje, 13 de outubro de 2008, às 00:50, meu pai faleceu. Guerreiro até o fim, lutou contra tudo, e parte hoje com a nobreza de um herói. Pai herói.

“E tanto faz... De tudo o que ficou,
guardo um retrato teu,
e a saudade mais bonita.”

Perto do coração
(Para Sila)
“Não dá pra ocultar
Algo preso quer sair do meu olhar
Atravessar montanhas e te alcançar
Tocar o seu olhar
Te fazer me enxergar e se enxergar em mim”
(Aqui, Ana Carolina)
Quando eu sinto suas digitais sob os barulhos mórbidos de um trovão que já foi mais forte e passou, que machucou e não ficou, eu fico imaginando quais segredos há em torno de você? Que mistérios são esses que eu tento descobrir todos os dias, quando escuto o seu ‘bom dia’? Eu gosto de andar lado a lado, de mãos dadas contigo porque temos sonhos parecidos e eles se perdem em duelos crônicos, de uma poesia também crônica: amar e amar. Amar ela, amá-la. Dos beijos mais carinhosos, das viagens de poucas horas, de São Paulo ao Rio de Janeiro, dos fevereiros que não têm fim, porque a distância maior não é a dos corações, é a da falta consentida, dos encontros e despedidas, das idas e vindas. Quando o ônibus parte, parte-se um coração ao meio, você deixa um pedaço com ela, e trás uma pecinha de quebra-cabeça, o “Love” é dela, o “You” é seu. Eu fico a imaginar, quando me conta, que o relógio tem culpa, e o tempo passa rápido, as horas são curtas e os abraços é que são longos demais.
Se faz sol lá, Si. Faz sol aqui, em mim.